Alice no País das Maravilhas talvez seja uma das histórias infantis mais queridas pelos adultos. Primeiro porque existe encanto e beleza e um certo toque de magia e absurdo, como em toda história infantil inteligente; depois, porque as mensagens subliminares escondidas em cada episódio, cada aventura vivida pela menina que cai na toca de um coelho e vai esbarrar em outro mundo, onde nada parece fazer sentido, dá margem às interpretações mais diversas. Têm pesquisadores que até duvidam que Alice no País das Maravilhas tenha sido escrito para crianças.
Baseado no tradicional Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, a Alice de Tim Burton é uma pós-adolescente. Em pânico por ter de se casar aos 19 anos, Alice foge e mais uma vez cai na toca do coelho. Durante sua estadia no País das Maravilhas, vai aprender a conhecer a si própria, adquirir auto-confiança e enfim poder voltar à vida real preparada para o que a espera. Em resumo, o filme é a viagem de autodescoberta de uma jovem inserida num mundo adulto onde não vê sentido e ao qual não faz a menor questão de fazer parte por causa da sua imaturidade.
A Alice do Burton, ao menos para mim, não decepciona nem um pouco. É exatamente o que eu esperava de um diretor como ele. Vale deixar claro que o filme do Tim Burton bebe na fonte do clássico de Lewis Carroll, recria o universo onírico do País das Maravilhas, mas conta outra história. Ou, para ser mais precisa, o diretor se permite um exercício que qualquer leitor bem treinado e de imaginação fértil adora fazer: imaginar o que acontece quando a história acaba. Quem nunca ficou pensando se a Cinderela e o príncipe foram mesmo felizes para sempre?
A fantasia é um alimento para a alma humana tanto quanto água e glicose são vitais para o corpo. Mas o que é preciso entender é que, nos tempos atuais, a fantasia flerta com a vida real e busca numa linguagem mais cotidiana, novos adeptos para o reino do sonhar. Como diz a Andrea Santana: "a mitologia clássica é fabulosa e deve ser preservada, mas novas histórias que bebem na fonte dos clássicos são sempre bem-vindas, ao menos para mim. Sendo que o conceito de novo atualmente não pode mais ser dissociado da ideia de recriação".
E é isso que Tim Burton faz, ao recriar Carrol com pitadas da sua própria mitologia pessoal. Transpõe para a tela do cinema um delírio imaginativo de um autor visionário, que há 150 anos (mais ou menos) foi capaz de conceber um mundo colorido e exagerado para explicar a uma criança que os adultos são criaturas muito esquisitas mesmo. Mas, como é Tim Burton, ele não se furta a inserir neste delírio de Carrol, alguns elementos do seu mundo: vilões bonachões e ridículos como a Rainha Vermelha Cabeçuda (reatualização da rainha de Copas do original) e mocinhas sombrias e com um sorriso meio ambíguo, como a Rainha Branca. O reino da Rainha Branca é mais assustador, na minha concepção, do que o coloridíssimo jardim da Rainha Vermelha.
A irmã de Alice é casada, uma dama da sociedade, obediente, convencional. Alice quer é transgredir, fugir do destino que a aguarda. Mas para isso, precisa amadurecer e dar-se o direito de enlouquecer um pouco. Quando criança, ela ouviu do pai que as pessoas loucas são as melhores e a loucura aqui é usada como metáfora para as pessoas mais audaciosas, corajosas, que fazem o próprio caminho. Não é à toa que o diretor opta por transformar o Chapeleiro, figura emblemática da obra de Carrol, em um líder excêntrico de uma rebelião contra a Rainha Vermelha. A loucura do Chapeleiro de Tim Burton é a dos visionários e dos apaixonados.
Outra sacada genial do diretor é transformar o País das Maravilhas em submundo. Durante séculos, a ideia de submundo, mundo inferior, foi associada ao inferno, mas vamos dar o nome correto aos bois: O que se convencionou chamar de submundo na verdade é tudo o que foge ao padrão, tudo o que choca a norma socialmente aceita e estabelecida. E é do underground que na maioria das vezes surgem os sopros de renovação, depois incorporados e "legitimados" pelo mundo de cima. Além disso, nenhuma viagem de autodescoberta que se preze, é válida se não houver uma descida ao "inferno". Portanto, o submundo, em se tratando de localização geográfica, é o local perfeito para assentar o País das Maravilhas. A fantasia, afinal, tem sua morada no inconsciente, o submundo da nossa consciência.
Quem vai ao cinema esperando ver a Alice do desenho da Disney, atenuada e infantilizada para as crianças da década de 50, com certeza vai se decepcionar. Além disso, Tim Burton não se satisfaz em recontar à sua maneira uma história que todos nós já conhecemos. Antes, o diretor se dá o direito de recriar Lewis Carrol, mas de avançar para além do País das Maravilhas, desenvolvendo uma trama em que Alice é a protagonista e não apenas a menina que cai na toca do coelho e descobre um mundo fabulos.


